terça-feira, 5 de abril de 2011

À Deusa

A deusa da minha rua
Era dona da cidade inteira
Não costumava se embriagar
Mas quando o fazia
Costumava se aconchegar
Em seu leito de dorso e seios

E essa dona que aqui vivia
Tinha amanhecer tristonho
Mas que a tarde brilhava
Se tornava dourada, mas escurecia
E dormia assim como no começo,
Meia triste, meio seca, meio assim

Seus espelhos sempre turvos
Mostravam reflexos de passado
Mas seus reflexos nunca presentes
Mostravam que nunca seria dona
Nem tomaria sua posse, nem sua pose
Não parecia ser daqui.

E assim se foi a deusa
A deusa da cidade inteira
Foi ser dona de outras estradas
Deusa de outras ruas
Continua dormindo tristonha
Mas inda brilha dourada e nua pra mim

segunda-feira, 4 de abril de 2011

EU NÃO SEI DIZER O QUE QUERO DIZER

Eu não sei fazer poesia, mas eu rimo
Não possuo a métrica infalível
Nem tampouco as regras que a regem
Não posso vocábulos suficientes
E menos ainda, possuo riqueza verbal
Meus sentimentos se perdem
Em meio à cacofonia de rimas fracas
Desvio da lógica quando abraço o som
E me perco entre os tempos dos verbos
Mesmo agora me vejo travado
Sem saber se rimo ou se continuo pausado
Entre uma intenção e a tensão
Das palavras que queria sussurrar
E foram ditas aos gritos
Perdendo-se no meio do caminho
Que podiam levar a um coração.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Para Ana

Gostaria de desejar um dia de sorrisos largos
Decidi então fazer isto em verso rimado
Meio sem simetria, sem pé nem cabeça,
Um dia com verso arretado

Um verso de berço de chão estorricado
Uma rima sem tempo meio improvisado
Um desejo de tempo berrado
Neste dia tão lindo desejo...

Feliz Aniversário

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bom Dia De Amar Você

Bom dia,
Posso amar você?
É possível sentar e conversar algumas horas?
Poderíamos andar de mãos dadas
E quem sabe até ver o por do sol, talvez o nascer...
Eu poderia te ouvir por algumas horas
Ou falar por dias e dias
Poderia até te carregar nas costas e correr pela areia
A gente podia tomar uma bebedeira
Rir da cara do outro numa tontura sem fim
Falar bobagens sem medo nenhum
Trocar nossas pernas de todos os jeitos
Andar na corda bamba sem medo
E cair nos braços um do outro
Você poderia ser ou agir assim?
Te faria algum mal?
Não seria normal?
Você pode tomar conta de mim?
Me deixar cuidar de você?
Me deixaria desnudar sua alma?
Fazer parte de suas partes e repartir seu carma
Invadir o seu sutra e traduzir seu gemido
Eu posso ver você rindo?
Será que pode ser assim?

domingo, 9 de janeiro de 2011

TEMPO

Cada dia passado são coisas que não voltam
Um amontoado de dúvidas sobre tudo
O que deveria ou não ter acontecido
Arrependimentos tardios
Enquanto me esvaio entre dedos
Os segundos que teimam em escapar
Já se tornam caros
Mesmo os que pensei ter aproveitado
Estes se tornaram raros
E todos aqueles que vivi já se tornam luz
Já nem os lembro
Será que vivi?

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

LEMBRANÇA

Tenho um tanto de lembrança
Entoado em uma cantiga
Desafino na varanda
Mas não estou de bem com vida

Lembro do apito que soava
Na avenida e aquela correria
O trem iria passar

E do amigo que esquecera o perigo
E sua trupe que em casa descansava
E que corri pra avisar

Mas também lembro as modas
Que tocavam na vitrola
E depois passou nas telas
E chamavam discotech

Lembro do amigo que rolava pelo piso
E a sessão de improviso
Pra aprender a dançar

E das meninas que escolhia com medo
Tem noção do desespero?
Achava que ia errar.

Dos amigos que saudade
Alguns ficaram até mais tarde
Outros se foram cedo
Mas eu ainda lembro

Lembro dos Paulos, do João e Silva Netto
Do Isa, Jau e de Carlinhos,
E mais cem nomes pra citar

E também tem o nome das meninas
Estela, Beth, Micheline
E a Claudinha pra terminar

Coisa boa que é lembrança
Desses pedacinhos de vida
E que passam feitos folha
De álbum de fotografia.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Canção do Enamorado

De todas que me apareceram
As que menos valeram
Eram as que pensei amar
Um tanto mais,
E assim se vai
Sem nada de mais,
Um tanto faz.

De todas as loucuras ungidas
As mais condenadas
Eram as mais lindas.
Que nascem e findam,
Assanham e dominam
Que parecem eternas
E então fogem de mim.

A medida mais larga (Depedida amarga)
A palavra ousada (Um “cheguei” sem risada)
A roupa usada (Talagada e água)
Uma rima pra mim (Uma sede sem fim)

Antes das minhas tréguas
Que antecederam a entrega
Houve uma briga ferrenha.
Que se tornaram tão feias,
Uns arranhões inda queimam,
O sangue inda ferve
Me arrancou a pele.

Hoje vejo a senda que me espera.
De abraços com o nada e sozinho
Vendo uma multidão ao lado
Eles aparecem sorrindo.
Escárnio pra mim é um hino
Que canto e desafino.
Sem medo de rir.